História

Ruy da Costa Val
O ano de 1968 foi marcado pelos movimentos estudantis em quase todo o planeta. As autoridades buscavam conter os vários protestos dos estudantes contra seus governos através do uso da força e de mecanismos de repressão. No Brasil, o regime manteve uma linha dura contra os manifestantes, agindo com punições, cassações, suspensão de direitos políticos, prisões, espancamentos, torturas, desaparecimentos e ocultação de cadáveres, exílio e várias outras atrocidades contra o direito civil.

Durante a Guerra Fria, uma enorme indução norte americana havia se instalado sobre a sociedade brasileira. Essa influência foi percebida em diversas áreas das esferas sociais, como na música, no cinema, na alimentação e no estilo de vida de alguns brasileiros. Mas foi na educação que a ingerência dos Estados Unidos acabou por provocar os estudantes universitários, liderados pelo diretório estudantil da UNE.

Segundo os dirigentes da União Nacional dos Estudantes, o governo brasileiro tinha a intenção de modificar, gradativamente, todas as universidades federais em regime de fundação. Essas mudanças foram uma imposição da Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) em cumprimento aos acordos feitos pelo Brasil com a agência. A não concordância com o que fora combinado pelo Ministério da Educação e Cultura e o órgão norte americano foi a principal reivindicação dos estudantes naquele momento.

Após o golpe, o novo governo instaurado pelos militares promulgou uma lei com o objetivo de sufocar qualquer manifestação estudantil. A “Lei Suplicy”, do então Ministro da Educação Flávio Suplicy de Lacerda, proibia a participação dos estudantes em questões políticas, suprimindo a liberdade de organização. Na tentativa de manter o controle sobre as ações dos estudantes, a polícia não hesitava em agir com autoritarismo e violência. A Igreja católica, tradicionalmente conservadora, assumiu a defesa dos estudantes e muitos padres eram vistos durante as passeatas e manifestações. Fatos como esses se tornaram comuns na sociedade belo horizontina.

Ao recordar esse tempo, Dona Olga Maria Ferreira da Costa Val, viúva do ex-deputado federal Ruy da Costa Val, membro do partido da ARENA, relembra como era difícil conter o ímpeto estudantil da adolescência pelo regime dos militares. Casada com um político democrata e membro de uma sociedade envolvida e vigiada pelo regime, essa gentil senhora revela os bastidores que antecederam o Ato Institucional nº. 5 em Belo Horizonte e a participação do seu marido na política belo horizontina.

Nascido em seis de setembro de 1924, em Viçosa (MG), Ruy da Costa Val era filho de João Braz da Costa Val e Vicencina Martino Val. O seu pai foi ex-prefeito de Viçosa e juiz de Direito do Estado de Minas Gerais, considerado uma figura de renome na política mineira.

Formado no curso de Direito pela UFMG, em 1949, ingressou na política como vereador exercendo o mandato entre 1955 a 1967 pelo Partido Democrata Cristão (PDC). Durante sua carreira política, Ruy também se filiou ao Partido Republicano (PR), vindo a mudar novamente com a revolução de 1964, quando compôs o partido da Arena. Findado o seu mandato, elegeu-se vereador pelo Partido Democrático Socialista (PDS) anos mais tarde. Como vereador, foi presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte em três legislaturas.

O cargo de deputado federal durou de 1967 a 1971, quando integrou a Comissão de Economia da Câmara. Depois, foi eleito deputado estadual por duas vezes, entre 1971 e 1975 e no período de 1979 a 1982, licenciando-se da legislatura para ocupar a Secretaria do Trabalho e Ação Social no governo de Rondon Pacheco.

A princípio, quase toda a população apoiava o movimento revolucionário movido pelos militares contra o governo de João Goulart. O medo da ameaça comunista gerava inquietações e comentários em todos os locais em que o tema era abordado. Os fortes conflitos de violência na ex-URSS e as notícias de freqüentes fuzilamentos na ilha de Cuba, disseminavam a imagem de um regime autoritarista bem próximo de ser praticado também no Brasil pelos adeptos do comunismo. Assim, quando da tomada do poder pelo Exército, parte da população de Belo Horizonte saiu nas ruas para aplaudir o desfile dos carros do exército e da polícia militar na comemoração da deposição do ex-presidente.

Nos anos que se seguiram, a opinião pública começou a perceber que os métodos usados pelos militares para monitorar o movimento vermelho havia tomado outras proporções. A liberdade de cada cidadão passou a ser cerceada e o movimento estudantil visto como um foco constante da ideologia política comunista.

Segundo Dona Olga Costa Val, durante o ano de 1968, véspera do rigoroso AI-5, pessoas próximas se tornaram espíãs do governo militar e passaram a se infiltrar nas reuniões familiares para saber o que pensavam determinados grupos. Muitos eram antigos conhecidos que informavam ao regime sobre atitudes suspeitas de vários políticos em troca de uma liberdade maior. Não é errado afirmar que essa atitude pode ser chamada de uma delação premiada, onde quem informa recebe uma anistia parcial sobre os próprios atos.

A casa nº. 1.817 situada na rua São Paulo, no bairro de Lourdes, foi palco de muitas reuniões entre os principais políticos da época. A região era habitada por muitos estadistas e pessoas ligadas ao governo de Minas, sendo o ex-governador Hélio Garcia vizinho dos Costa Val. Continuamente, um carro de polícia ficava próximo as imediações da residência amarela, monitorando o que se passava no bairro. Da janela de seu quarto no andar superior, Olga observava a rotina de insegurança que se aproximava ainda mais com a chegada do fim do ano.

Mesmo com as filhas cursando o antigo 2º grau de ensino próximo de casa, a intranqüilidade era sempre visível a cada ida e vinda da viatura. Havia sempre o risco de uma ação militar contra os estudantes. Alunas do Colégio Estadual Central, Maria da Graça e Valéria simpatizavam-se com o movimento estudantil participando, algumas vezes, de passeatas escondidas do próprio pai. Essa pequena mostra de concordância com os ideais estudantis da época era muito perigosa. Muitos sabiam que o pai delas era do governo e uma denúncia colocaria a carreira política dele em perigo. E Dona Olga tinha razão em seus temores. Bastava uma denúncia anônima para que a polícia invadisse qualquer residência, mesmo sendo a denúncia infundada e sem a legitimidade de provas. Essa própria atitude foi usada contra Ruy por seus inimigos políticos, que o denunciaram duas vezes por subversão política. Não tendo o que temer, Costa Val compareceu ao antigo ID 4, localizado na rua Santa Catarina, para prestar esclarecimentos. O órgão faz parte da circunscrição militar do Exército em Belo Horizonte e era comandado pelo general Dióscolo do Vale, um homem tido como linha dura dentro do sistema político da época.

“Eu já tive que pegar o carro e sair dirigindo correndo para ver onde as meninas estavam, pois a polícia estava batendo em todos os estudantes que faziam uma passeata perto do colégio e todo mundo tinha que fugir para não apanhar”, relembra, sorrindo, de como foi difícil criá-las durante o regime.

Ruy da Costa Val era funcionário da Prefeitura Municipal e havia pedido licença do cargo para se eleger vereador na capital. Durante o período que antecedeu as eleições para a Câmara Federal, Costa Val era o presidente da Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte. Incentivado por uma corrente política e por seus eleitores, candidatou-se a cadeira de deputado federal e alcançou, no pleito, a suplência do cargo na Casa. Dois meses antes de ser instaurado o AI-5, um dos deputados foi nomeado para o Tribunal de Contas do Governo, surgindo a vaga para a cadeira principal. Com a promulgação do Ato Institucional e o fechamento do Congresso, ficou mais de um ano sem receber provento financeiro algum, entrando em uma grave crise financeira. Não recebia como deputado e não podia voltar para a Prefeitura por ainda possuir um mandato a ser cumprido.

Dona Olga relembra os dias difíceis: ”(…) passamos muito aperto. As meninas estavam estudando e as contas com a campanha para a Câmara estavam quase todas vencidas. O Ruy teve que vender a casa para honrar os compromissos e cuidar de toda a família. Quando foi reaberto o Congresso, seu mandato já estava quase no final. Ninguém recebeu um centavo enquanto a Casa estava fechada. Esse foi um dos castigos do regime militar contra todos os deputados”.

Durante 1968, no auge do temor comunista, personagens ilustres freqüentavam as festas oferecidas para a sociedade belo horizontina. As celebrações eram pretextos para monitorar a sociedade influente da capital de Minas. Um deles foi o cônsul norte-americano Lawrence Laser. Muitos suspeitavam que ele também fosse membro da CIA infiltrado entre eles, a serviço dos generais e do próprio Estados Unidos para denunciar focos comunistas em Belo Horizonte.

Laser veio para a cidade com o discurso de reunir os democratas e os que eram a favor da democracia. Segundo Dona Olga, “era um rapaz simpático e muito inteligente que freqüentava muito a nossa casa. Ele era casado e possuía uma casa muito boa, onde dava festas para se aproximar das famílias dos políticos daqui”. Entre as curiosidades a respeito do norte-americano estava uma bolsa preta que ele não largava de seu lado. Nunca a abrira na presença de ninguém. A única pessoa em que confiava a guarda da valise era para a esposa do deputado Costa Val, pois acreditava na idoneidade e bom senso de sua anfitriã. Após a instauração do AI-5, ele retornou para o seu país.

Durante os anos de chumbo (1968-1974), sob a tutela do General Emílio Garrastazu Médici, outro cônsul americano começou a freqüentar as rodas políticas e sociais de Belo Horizonte.

Robert Fanbrini tornou-se amigo do deputado Costa Val e de sua família. Celebrando essa amizade, sempre procurava por Ruy com a lista dos políticos que iriam ser caçados pelo regime Médici. Essa atitude proporcionava ao mineiro avisar aos amigos próximos que constavam o nome na lista, dando chance a eles de se defenderem de uma possível cassação ou de um exílio político. Entre os delatados estavam nomes como Gerardo Renault, ex-deputado, e o de Humberto Reis, um atuante político da época.

Além de um político engajado socialmente com seus eleitores e amigos, Ruy da Costa Val também exerceu o magistério, integrando os corpos docentes do Instituto Municipal de Administração e Ciências Contábeis (IMACO) e dos colégios Santo Antônio, Anchieta, Arquidiocesano e Municipal. Como escritor, publicou os trabalhos “O direito inglês e os direitos ocidentais”, “Métodos de pesquisa filosófica”, “Pareceres e votos” e “O problema da gratuidade do mandato de vereador”.

Hoje, quase quarenta anos após a instauração do Ato Institucional nº. 5, Dona Olga da Costa Val continua residindo em Belo Horizonte, agora no bairro da Serra. Da varanda de seu apartamento, comprado pelo marido através de muito sacrifício, nossa ilustre entrevistada faz uma última ponderação sobre a carreira de Ruy: “(…) ele foi um homem que sempre trabalhou para ajudar os outros, inclusive até o próprio América. Uns falavam que ele era doido… eu só sei que ele pensava muito a frente daquele tempo”, concretizou.

Ruy da Costa Val morreu em 22 de agosto de 1991, de septicemia pós-operatória no Hospital Biocor, em Belo Horizonte. O velório ocorreu na Assembléia Legislativa e seu corpo sepultado no cemitério do Bonfim.

Em 24 de março de 1992, o prefeito Eduardo Azeredo inaugurou a Escola Municipal Ruy da Costa Val, localizada na Rua 28 nº. 30, no Conjunto Felicidade, em Belo Horizonte, em justa homenagem ao estadista e político mineiro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: